terça-feira, 2 de junho de 2015

RESENHA DA ESCRITORA VIVIAN DE MORAES

"Atire a primeira pedra"
Com "Todos os pecados" (Kazuá, 2015), o escritor Elias Araujo estreia em livro com um romance. Já detentor de diversos prêmios literários, o autor buscou na formação religiosa, nas lembranças da infância no campo e numa mente aberta e inquiridora, muitas vezes implacável, as inspirações para o seu "début" literário.
Quando tratou com os editores, fez-lhes um pedido: uma porteira na capa da obra. Essa porteira, que se repete no canto da página a cada novo capítulo, pode ser considerada a personagem principal da história, já que as pessoas, na sua obra, são um tanto insondáveis, e a descrição é a maior marca do livro. Eventualmente, Araujo utiliza o estilo indireto livre, que dá acesso ao coração das personagens, mas não abusa. O estilo é direto, faz-se, pensa-se e pronto, o Mal está feito na família de evangélicos que é o centro do enredo.
Mesmo assim, não dá para dizer que o livro é maniqueísta. O narrador em terceira pessoa olha com carinho para cada membro da família de Moisés, composta por ele, sua mulher Sara e os filhos Josué, Davi, Isaque, Levi, Salomão e João Batista.
Com um começo em que o pai e chefe da temida família observa a chuva fecundar as terras do seu sítio, e por isso agradecendo a Deus, o livro não deixa lugar a que o leitor imagine que qualquer tipo de tragédia ocorra com aquela família. O problema inicial é Sara, mulher dez anos mais nova que Moisés, e que "sorri amarelo" para Moisés, não participando do coração transbordante de gratidão a Deus daquele homem que sonha em ser pastor.
A verdade vai surgindo à medida em que a leitura avança, e avança rápido. Os acontecimentos são vertiginosos. E aquela porteira, que poderia ser a personagem principal do livro, ou talvez, se Araujo se propusesse fazer um livro mais fantástico, poderia ser o próprio narrador da história, vê sair por ela, um a um, os seis filhos. Porque todos os pecados são cometidos.
Se o leitor quiser julgar, mas for indulgente, crerá que o maior pecador é o próprio Moisés, o patriarca que rege com mão de ferro a família. Os pecados dos parentes parecem pouco perto da rigidez daquele homem. Mas será que é isso o que faz a família inteira pecar? Pode-se dizer que esse é o grande dilema da história.
Mas a porteira que vê sair, também vê chegar. Na última cena. Uma reconciliação ocorre, para um leitor que, chegando ao fim do livro, já está completamente tomado de emoção.
Emoção é o forte do livro e contrasta com o tom seco da narração: uma proeza de Araujo. Mas nessa secura, surge aqui e ali, uma ou outra expressão metafórica de grande beleza, como na página 199: "E então não conseguiu mais parar. Nem de amar as mulheres daquele seu jeito suado que elas adoravam. Nem de promover a amizade entre uma pessoa e a morte".
Morte, mutilação, dor, vergonha, medo, obstinação, incesto, fé, esperança, sonho, realização, perda e reencontro: tudo isso está em "Todos os pecados". Incluindo, é claro, os próprios pecados.
Se você quiser ser o leitor dessa história fascinante, quem irá atirar a primeira pedra?